Missão: A diretoria Nacional das Mulheres Episcopais Anglicanas do Brasil (UMEAB), da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, é o órgão de integração das Diretorias Diocesanas da entidade e/ou lideranças do trabalho feminino, em nível de diocese.

Conferência sobre mulheres une Episcopais do Brasil e Uruguai

O foco permanece na prevenção da violência baseada no gênero

Por Lynette Wilson | 25 de novembro de 2014

 

[Episcopal News Service – Montevidéu, Uruguai] Algumas mulheres começaram a guardar dinheiro mais de seis meses antes e viajaram doze horas de ônibus cruzando a fronteira para comparecerem a uma conferência binacional, que uniu por mais de oito anos mulheres brasileiras e uruguaias por meio de histórias de desafios, coragem, força e amor.

Seu mundo está mudando, e algumas mulheres estão chegando a papéis de liderança. Ainda assim, muito precisa ser feito para executar a pioneira Convenção de Belém, que exigiu aos países que a assinaram 20 anos atrás que educassem seus povos sobre os direitos das mulheres, enfrentassem o machismo e aprovassem leis que protejam as mulheres da violência.

No início deste mês, 100 mulheres e mais de uma dúzia de homens representando as três dioceses mais a sul – Meridional, Sul-Ocidental e Pelotas – da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e a Diocese Anglicana do Uruguai se uniram em um centro de retiro espiritual a 30 minutos da capital uruguaia para uma conferência de dois dias focada no tema “mulheres da igreja comprometidas com a mudança social”.

O encontro anual oferece espaço, disseram as mulheres, para compartilhar histórias e construir relacionamentos que as fortalecem em suas vidas e no ministério de suas comunidades; uma das maneiras que as mulheres estão comprometidas com a mudança social em suas comunidades é pela criação da consciência e intervenção da prevenção da violência com base no gênero.

A violência contra a criança e a mulher é predominante e muitas vezes lugar-comum por toda a América Latina, onde frequentemente “as mulheres nem mesmo estão cientes da violência que sofrem, ou acreditam que elas são as únicas a serem abusadas”, disse Christina Takatsu Winnischofer, presidente da União das Mulheres Episcopais Anglicanas do Brasil (UMEAB).

No encontro de 8 e 9 de novembro, homens e mulheres compartilharam histórias da igreja, do ministério comunitário e de programas sociais que estavam funcionando bem e daqueles que enfrentavam desafios, desde ter recursos para cobrir as necessidades da comunidade até as restrições e proibições que se aplicam ao trabalho das igrejas com as agências governamentais que prestam serviços sociais.

O foco na violência contra a criança e a mulher, sendo a maior parte violência doméstica, foi um tema trazido desde a conferência do ano anterior realizada na Diocese Meridional do Brasil.

A Igreja Episcopal dos EUA, que partilha um acordo de companheirismo com a igreja no Brasil (que se tornou uma província autônoma em 1965), também esteve presente na conferência de dois dias, com a Revda. Glenda McQueen, oficial para a América Latina e Caribe, e o Rev. David Copley, oficial para pessoal da missão, ambos trabalhando no escritório de companheirismo global; as missionárias indicadas pela Igreja Episcopal Monica Vega e Heidi Schmidt, que atuam na Província do Brasil, e as missionárias do Young Adult Service Corps, Nina Boe da Diocese de Olímpia e Kirsten Lowell da Diocese do Maine, que atuam respectivamente na Diocese do Rio de Janeiro e na Diocese do Uruguai.

“Há este movimento que busca abordar as questões das mulheres em nossas igrejas nos dias de hoje, o que é crucial”, disse Vega, que além de atuar no escritório provincial da igreja, também trabalha em uma organização sem fins lucrativos que busca qualificar mulheres vendedoras de rua.

Trabalhar com as questões da mulher não é algo a se fazer por ser uma tendência, ela completa, “mas por ser um sinal do Reino. Devolver a dignidade às mulheres é um sinal do Reino, foi isto que Jesus fez”.

O Uruguai, um dos menores países, tanto em termos de população e de território na América do Sul, compartilha suas fronteiras com os dois maiores, Argentina a oeste e uma muito maior com o Brasil ao norte e leste. Há 200 milhões de habitantes no Brasil, comparado com os 3,5 milhões no Uruguai, com 9 por cento e 11,5 por cento da população vivendo na pobreza, respectivamente, de acordo com informações do Banco Mundial.

No entanto, quando se trata da violência contra a mulher, tamanho, renda e outras informações de desenvolvimento não contam a história do que as Nações Unidas chamam de “pandêmica de diversas maneiras”. Uma média de 68 casos de violência doméstica foram reportados diariamente em 2013 no Uruguai; a Anistia Internacional criticou o governo por sua incapacidade de responder adequadamente os casos de violência contra a mulher. Entre 2001 e 2011, mais de 50.000 mulheres foram assassinadas, muitas como resultado de violência doméstica, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O Brasil é o sétimo país mais perigoso no mundo ao se medir a taxa de violência contra a mulher.

Durante o Ofício Eucarístico de 9 de novembro, em pares, as mulheres encenaram um exercício que demonstrava como é quando as mulheres são tratadas como coisa, ou objeto – o ponto é que quando uma mulher é tradada como coisa, elas não importam.

Quando a igreja começou a falar sobre a violência contra a mulher, andava-se em um território desconhecido, pois a “violência contra a mulher não é algo que se fala na igreja”, disse o Arcebispo Francisco de Assis da Silva, Primaz do Brasil desde 2013, e bispo da Diocese Sul-Ocidental do Brasil.

Era algo, todavia, que a igreja precisava fazer apesar do “tabu”, da Silva disse quando se direcionou à conferência no segundo dia. Quando a igreja começou a falar sobre a violência contra a mulher, não pode negar que isto também existe na igreja, e que infelizmente os homens não veem isto como um tópico importante.

“É algo que apresentado por mulheres, para mulheres”, disse ele, e este é um dos maiores obstáculos ao se tratar da violência contra a criança e a mulher. “É algo que os homens precisam trazer à tona”.

Assumindo a liderança nos direitos das mulheres

Coordenado pelo Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD), que coordena os serviços e projetos socais em todos os níveis da igreja, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil empreendeu um estudo de dois anos sobre os direitos humanos, que por meio dos comentários das bases, levou ao foco na violência doméstica, explica Sandra Andrade, diretora do SADD.

Em agosto de 2013, o SADD, em parceria com o Christian Aid, lançou seu primeiro livreto visando a prevenção e intervenção da violência de gênero contra a mulher. O livreto, que inclui 10 oficinas de trabalho tanto para homens como para mulheres, foi posteriormente traduzido do português para o espanhol e inglês com a ajuda do Episcopal Relief & Development; e desde então foi compartilhado na América Latina e África.

Uma segunda versão do livreto foi atualizado com oficinas sobre estratégias de prevenção para AIDS foi lançada no começo deste ano e distribuída na conferência.

“A violência doméstica contra a mulher é uma consequência de uma cultura construída por uma sociedade que promove a desigualdade baseada em diferenças consideradas naturais (biológicas) entre os sexos, que determinam como cada pessoa deve se comportar por ser de um gênero ou de outro”, lê-se.

“Assim como em todos os espaços sociais, as comunidades religiosas não são isentas dessa realidade, e, frequentemente, contribui para a perpetuação desta violência por meio de declarações e práticas. Portanto, se uma comunidade religiosa é capaz de praticar violência de gênero contra a mulher, nós também podemos admitir que somos capazes de superar e vencer esta realidade e construir uma cultura de paz baseada no Evangelho de Jesus Cristo”.

Isolamento

Amazônia, que cobre mais de 2 milhões de quilômetros quadrados no norte do Brasil, pode se sentir particularmente isolada, pois frequentemente é separada dos serviços governamentais. Um bispo e dois reverendos cobrem nove comunidades distintas nas quais a violência doméstica prevalece. “As mulheres estão literalmente morrendo de violência”, disse Maria Elizabeth Santos Teixeira, uma policial da Diocese da Amazônia que atua como vice-presidente da UMEAB.

“Uma coisa é dizer que há dificuldades, outra coisa é poder sentar com outros e poder contar suas histórias”, disse Santos Teixeira.

O isolamento que Santos Teixeira algumas vezes sente na Amazônia também pode ser sentida no Uruguai. A Diocese do Uruguai teve sua tentativa de se tornar parte da Província do Brasil frustrada em 2012.

A participação das mulheres uruguaias na conferência começou como parte do relacionamento de companheirismo com a Diocese Sul-Ocidental do Brasil, mas o relacionamento se estendeu para além disto. A igreja no Uruguai é mais conectada com a igreja do Brasil do que com sua própria província.

“Foi o trabalho com o sul do Brasil que novamente deu vida à igreja no Uruguai; eles realmente trabalharam com a continuidade das bases da igreja”, disse a Revmo. Michele Pollesel, que se tronou Bispo do Uruguai em 2013, após inicialmente ter sido rejeitado pelos bispos da Igreja Anglicana do Sul da América, anteriormente chamada de Igreja Anglicana do Cone Sul.

Uma das coias que a igreja no Uruguai tem lutado há tempos, disse Pollesel, é a ordenação feminina, coisa que ele acredita que virá nos próximos 12 meses enquanto a Província está e processo de aprovar seus novos cânones provinciais.

No Brasil, uma longa história do envolvimento feminino

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil existe há mais de 150 anos no que é considerado um país majoritariamente Católico Romano. Em contraste, a Diocese do Uruguai celebra 25 anos em 2014 em um país majoritariamente secular que é considerado o mais liberal na América Latina.

Apesar da reputação liberal do Uruguai, as mulheres não são normalmente vistas em papéis de liderança da sociedade; o mesmo acontece na igreja.

As mulheres da igreja no Uruguai tendem a ter um papel mais tradicional, dando apoio no nível paroquial, disse Gabriela Nuñes, uma líder leiga e psicóloga que casou com um reverendo.

Por outro lado, a União das Mulheres Episcopais Anglicanas existe no Brasil sob diferentes nomes por mais de 100 anos, e adotou seu nome atual na década de 1980 “para refletir a necessidade das mulheres permanecerem unidas”, disse Winnischofer, a presidente da União e secretária-geral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil de 2003 a 2006.

A mudança do nome também simbolizou uma mudança no foco do que foi um papel tradicional de auxiliar e apoiara a igreja, os mais idosos e os pobres, para um que incluísse as necessidades das mulheres; e aconteceu em um momento no qual as mulheres da igreja se uniram para apoiar a ordenação feminina, que também levantou a questão do status da mulher na igreja, disse Winnischofer.

Em 1985, a Revda. Carmen Gomes se tornou na primeira mulher ordenada na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que hoje têm 30 mulheres reverendas servindo por nove dioceses. Adicionalmente, as mulheres atuam em papéis de liderança em todos os níveis da igreja.

Por meio de reuniões, compartilhamento de histórias e apoio de umas às outras, a União das Mulheres ainda trabalha para aumentar o status da mulher na igreja e na sociedade, o que é mais difícil quando as mulheres precisam trabalhar e atender as demandas familiares em tempo integral, disse Winnischofer.

“As mulheres são mais visíveis na sociedade”, disse ela, mas ainda são sub-representadas em papéis de liderança, apesar dos avanços. Ela disse que uma atitude persistente tem sido de que se “por um lado somos visíveis e temos presença, que não precisamos ir à mesa por já estarmos na sala”.

 

– Lynette Wilson é editora/repórter para o Episcopal News Service.

- Tradução Ricardo Ito

Fonte: 
http://episcopaldigitalnetwork.com/ens/2014/11/25/womens-conference-gathers-episcopalians-from-brazil-uruguay/