Missão: A diretoria Nacional das Mulheres Episcopais Anglicanas do Brasil (UMEAB), da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, é o órgão de integração das Diretorias Diocesanas da entidade e/ou lideranças do trabalho feminino, em nível de diocese.

A ELEIÇÃO EPISCOPAL NA DIOCESE MERIDIONAL DA IEAB

Resumo: A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, província da Comunhão Anglicana desde 1910, compreende nove dioceses. Cada diocese é liderada por um bispo, eleito dentre os presbíteros e presbíteras da Igreja, pelo povo e clero. O clero da Igreja compreende três ordens: diaconato, presbiterado e episcopado. As mulheres são ordenadas há vinte e sete anos. No entanto, mesmo que em eleições recentes tenha havido mulheres como candidatas, somente homens têm sido eleitos ao episcopado. Mais recentemente, na Diocese Meridional, em Porto Alegre, houve um processo eleitoral no qual havia dois homens candidatos e uma mulher candidata. O processo consistiu na realização de reuniões regionais para oportunizar o diálogo dos candidatos e da candidata com povo diocesano. No diálogo foi possível a elaboração de perguntas comuns e específicas para as pessoas candidatas. Entretanto, à única candidata mulher foram destinadas questões que desvelaram as desigualdades de gênero culturalmente construídas e legitimadas pelo discurso religioso de algumas lideranças. O objetivo do presente texto é fazer uma análise desses discursos a partir da chave hermenêutica de gênero.

 1. A Ordenação de Mulheres na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB)

O Anglicanismo chega ao Brasil em 1810, em forma de capelania nas regiões Sudeste, Norte e Nordeste, para atendimento às pessoas anglicanas que vieram trabalhar nas ferrovias e nos seringais. Mas somente 80 anos depois, o Anglicanismo de Missão constitui a Igreja Episcopal do Brasil (IEB), que no aniversário do seu centenário, em 1980, passou a ser denominada Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).

Mesmo sendo uma Igreja inclusiva, o que faz parte de seu ethos, somente em maio 1985, ou seja, 105 anos após a sua institucionalização no Brasil, a IEAB passou a admitir a ordenação de mulheres; sendo Carmen Etel Alves Gomes a primeira mulher ordenada na IEAB, como consequência de uma década de discussão e reflexão sobre o tema. Uma reivindicação iniciada em 1973, tendo o pleito aprovado no Sínodo Geral da Igreja em junho de 1984.

Em toda a Comunhão Anglicana, da qual a IEAB é uma das 44 províncias espalhadas em todo o mundo, a primeira província a ordenar mulheres às sagradas ordens foi a Diocese Hong Kong, na China, quando da II Guerra Mundial, pela urgente necessidade de atendimento à comunidade chinesa em Macao. Pois havia a proibição de da entrada de presbíteros nos territórios ocupados, impossibilitando-os de chegar a essa comunidade. Em 1944, portanto, Forence Lee Tim Oi foi ordenada diácona e presbítera na Diocese de Hong Kong.

Em 2005, as reverendas anglicanas de todo o Brasil, que compreendiam 30% do clero nacional da IEAB, reuniram-se para compartilhar suas experiências e para celebrar duas décadas da ordenação feminina. Na ocasião, reuniram-se com as clérigas anglicanas, lideranças leigas e ministras pastorais auxiliares da mesma IEAB, bem como clérigas de igrejas irmãs. Na carta aberta ao término no encontro, foram destacadas pelo menos três recomendações: Que a formação teológica na IEAB contemplasse a questão de gênero, através da revisão do currículo dos cursos de Teologia e da inclusão disciplina Teologia Feminista nos nossos Seminários e Centros de Estudos Teológicos Diocesanos; que através do Centro de Estudos Anglicanos (CEA) discussão sobre o tema fosse difundida e ampliada, por meio da promoção de seminários regionais e diocesanos; e que a Junta Nacional de Estudos Teológicos (JUNET) contemple em seu programa de bolsas de estudos a formação em outras áreas do saber, como forma de auxílio no desenvolvimento do ministério; que a IEAB respeite a resolução do Conselho Consultivo Anglicano (CCA), de junho de 2005, que solicita a participação feminina de 50% em todos os níveis decisórios da Comunhão Anglicana: cargos e comissões paroquiais, diocesanos e provinciais; que a política salarial das dioceses contemple justiça e igualdade no exercício do ministério feminino, tornando os salários dignos e nos mesmos níveis que são pagos aos homens que exercem igual função; e que também sejam respeitados os direitos de previdência complementar Fundo de Aposentadorias e Pensões (FABIEP) da IEAB. (Carta Aberta à IEAB. Itaara, 2005. Disponível em: http://iawn.anglicancommunion.org/resources/docs/Brazil_ConfReport_2005_Portuguese.pdf).

 Como atestam as recomendações acima, mesmo sendo uma Igreja que ordenava mulheres há duas décadas - o que somente passou a acontecer na Igreja da Inglaterra em 1990-, ainda assim, essa prática não significou equidade dos direitos entre homens e mulheres no clero anglicano brasileiro. Sendo importante ressaltar que uma vez admitindo a ordenação feminina, a IEAB admitiu que as mulheres poderiam ser ordenadas às três ordens clericais: diaconato, presbiterado e episcopado. No entanto, até a presente data, nenhuma mulher foi ordenada ao episcopado em todo o Brasil.

 2. Mulher e Episcopado na IEAB

A compreensão de ordens na IEAB, assim como em toda a Comunhão Anglicana, é uma compreensão de hierarquia. Apesar de que em todo o Novo Testamento bíblico, não seja encontrada qualquer referência que endosse essa compreensão. Em sua organização estrutural, tem-se na diocese sua menor unidade. Unidade essa dirigida por um bispo, no caso do Brasil, já que não há mulher sagrada ao episcopado. De modo que sendo uma igreja episcopal, sua administração está sob a regência da pessoa que tenha sido ordenada ao episcopado. O que talvez explique porque ainda não haja mulheres ordenadas ao episcopado no Brasil, uma vez que a Igreja brasileira, assim como toda a sociedade nacional, está desenhada sob o sistema patriarcal, do qual o machismo é sua principal ideologia.

Em toda a Comunhão Anglicana, a Província que primeiro sagrou uma mulher ao episcopado foi a Igreja Episcopal dos Estados Unidos, da qual essa mesma mulher é a atual Bispa Presidenta, a Revdma. Katharine Jefferts Schori. Em todo o mundo, são dezenas de mulheres sagradas ao episcopado, incluindo a Província do continente africano, que é uma das mais conservadoras. No entanto, no Brasil, ainda não temos uma mulher bispa.

Em maio de 2013, a IEAB celebrará 28 anos de ordenação feminina. Ou seja, quase três décadas de ministério feminino ordenado na Igreja brasileira. Mas só recentemente, nos últimos anos, as mulheres passaram a participar dos processos de eleição episcopal na Igreja brasileira. Desde então, foram apenas quatro eleições episcopais, a saber, das Dioceses de Brasília, Pelotas, Sul-Ocidental (Santa Maria/RS) e Meridional (Porto Alegre/RS), em 2000, 2007, 2010 e 2012, respectivamente. E nas quatro ocasiões somente homens foram eleitos.

Por ser a eleição mais recente, mais próxima, e por sermos nós, autoras do presente texto, partícipes do processo, seja como candidata, seja como apoiadora da candidatura, assumimos o desafio de propormos uma reflexão sobre o recente episódio numa perspectiva analítica de gênero, por entendermos que essa proposição nos ajudará a melhor compreendermos o quanto ainda nos falta para avançarmos, enquanto igreja, parte da sociedade brasileira, na implementação efetiva da equidade de gênero, necessária à transformação da sociedade que ainda vive sob o sistema patriarcal.

Para tanto, entendemos necessário elucidarmos conceitualmente o que entendemos sobre gênero e sobre sua origem do Feminismo; bem como sobre o sistema patriarcal e a ideologia do machismo que o alimenta.

3. Gênero: Derivação do Feminismo

Por gênero, adotamos o conceito da socióloga norteamericana Joan Scott "um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos". Sendo assim, gênero é uma categoria de análise social que questiona as desigualdades entres os sexos, legitimadas pelas diferenças biológicas. Enquanto categoria de análise, gênero deriva do Feminismo, movimento político com mais de dois séculos de reconhecimento e ainda mais tempo de existência, que denuncia o modelo de poder masculino que se impõe como paradigma das relações humanas estabelecidas na sociedade. A esse modelo de poder masculino, ideologia intitulada de machismo, que instaurou o sistema patriarcal; que o Feminismo denuncia, promovendo o anúncio da necessária transformação das relações humanas com base na equidade de gênero.

                Scott, que realizou uma pesquisa importante sobre a procedência do uso do conceito “gênero”, afirma que: “A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como ‘sexo’ ou ‘diferença sexual’. [...] o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos”. Gênero sublinha também o aspecto relacional das definições normativas das feminilidades, conforme a autora. Vê-se aí duas constatações fundamentais para a desconstrução do modelo relacional culturalmente constituído: que as diferenças são naturais, mas as desigualdades são culturais e historicamente construídas. Portanto, ser mulher e ser homem são construções culturais, como bem o afirma a socióloga chilena Teresa Valdes: “[...] a incorporação da categoria gênero parte do feminismo anglo-saxão para se referir à construção social do feminino e do masculino, privilegiando o social e o simbólico sobre o biológico na explicação das diferenças entre homens e mulheres”. Valdez afirma também que a “‘identidade de gênero, a identidade feminina se apresenta como uma construção social e cultural, variável, histórica e transformadora que se distingue da identidade sexual”.

                Gênero, portanto, é uma categoria de análise social derivada do Feminismo, de caráter relacional, que denuncia o modelo de poder masculino que se impõe como paradigma das relações humanas estabelecidas na sociedade. O poder é aí entendido “[...] como relação de forças, na qual constantemente está presente seu exercício sobre um sujeito que não o vive de forma passiva, senão que assume compromissos, opõe resistências, estabelece limites, causa rupturas, conforme as diversas situações de força”.

                Para Scott, o poder e o conceito de gênero estão imbricados, uma vez que “o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”. Poder, que segundo a socióloga paulista Daniella Coulouris, é um dos “conceitos centrais para a reflexão teórica de gênero”, assim como também a dominação, a ideologia e o discurso.

                Para a filósofa e teóloga brasileira Ivone Gebara, gênero “[...] significa um modo de ser no mundo, um modo de ser educado/a e um modo de ser percebido/a que condiciona o ser e o agir de cada um”.

                Esse modelo de poder masculino, denominado patriarcado, que tem no machismo sua maior expressão, tem ignorado as variadas masculinidades e feminilidades, sendo necessária a retomada do princípio da igualdade, primeira bandeira do feminismo histórico, atualizando-o com a perspectiva do respeito às diferenças, que se corporifica no que entendemos como equidade.

 

                Como observa Scott, é preciso superar a visão do poder social como unificado, centralizado e coerente, pela compreensão foucaultiana de poder “entendido como constelações dispersas de relações desiguais constituídas pelo discurso nos campos de forças”.

4. A Eleição Episcopal na Diocese Meridional da IEAB

A IEAB é uma província da Comunhão Anglicana desde 1910, composta por nove dioceses. Cada diocese é liderada por um bispo, eleito dentre os presbíteros e presbíteras da Igreja, pelo povo e clero. O clero da Igreja é constituído por três ordens: diaconato, presbiterado e episcopado. Recentemente, na Diocese Meridional, em Porto Alegre, houve um processo eleitoral no qual havia dois homens candidatos e uma mulher candidata. Um dado curioso está no mútuo apoio dos dois candidatos homens, no qual um assinou a carta de apresentação da candidatura um do outro, o que pode ser lido como um prenúncio de uma possível coligação, caso a disputa envolvesse um dos nomes e a única candidata mulher.

Uma de nós, Marinez Rosa dos Santos Bassotto, é clériga da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, tem 42 anos de vida, 18 anos de ministério Ordenado, é divorciada do primeiro casamento e do segundo casamento, que celebra dez anos, tem duas filhas. Vejamos um breve relato sobre a sua vida ministerial:

Quero iniciar este breve relato afirmando que eu creio que o que hoje somos é fruto de nossas experiências e vivências ao longo da vida, eu sou fruto do trabalho missionário da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil / nasci no interior de Canguçu, em uma área missionária onde havia uma paróquia e muitas missões, meu avô foi um dos fundadores deste trabalho. Cresci e fui me sentindo desde muito cedo vocacionada ao ministério sempre tendo minha vida e minha história enraizada na vida desta Igreja. (...)

(...) E assim vinda do interior, de uma área missionária, cheguei a Pelotas e de lá pra Porto Alegre, para estudar Teologia com vistas a ordenação – muitas foram as experiências até ser colocada como diácona por Dom Cláudio Vinícius de Senna Gastal na Catedral da Santíssima Trindade, a qual, mais tarde, assumi como Deã com 4 anos de ministério e 28 anos de vida, tornando-me a primeira mulher brasileira a assumir uma Catedral – todas as experiências e envolvimento com a vida da igreja tornaram-me a pessoa que sou hoje.( BASSOTTO, Marinez Rosa dos Santos. Extrato do relato elaborado por ocasião do processo eleitoral espicopal da Diocese Meridional. Porto Alegre, 2012)

 Sendo essa mulher, primeira a assumir a reitoria de uma catedral diocesana na IEAB, convidada a participar do processo eleitoral em questão, por algumas e alguns colegas de ministério, que nela reconheceram vocação pastoral e condições para o exercício do ministério episcopal.

O processo eleitoral consistiu na realização de reuniões regionais nas áreas missionárias da Diocese, para oportunizar o diálogo dos candidatos e da candidata com povo diocesano. No diálogo foi possível a elaboração de perguntas comuns à candidata e aos candidatos, dentre as quais destacamos:

Nas igrejas o que se vê são pessoas “adultas”. O que pensas em fazer para atrair as crianças e os jovens? Considera importante a avaliação de seu episcopado pelas comunidades? Em que periodicidade aconteceria? Você se considera capacitada para o episcopado? Como pretende apoiar o clero diocesano no trabalho de expansão missionária da Igreja? Como melhorar a Educação Cristã? Por que você quer ser bispa ou bispo? Como pretende supervisionar as paróquias e motivá-las a evangelizar e a realizar missão? Qual sua experiência em missão? Essa etapa oportunizou que os candidatos e a candidata pudessem compartilhar seus conhecimentos, seus saberes, suas experiências com o povo diocesano. O que foi, sem sombra de dúvida, uma excelente oportunidade de crescimento individual e coletivo para todas as pessoas partícipes do processo.

                Entretanto, quando as perguntas foram específicas para um dos candidatos ou para a candidata, houve uma que mais explicitamente oportunizou explicitar a desigualdade imposta por algumas pessoas partícipes do processo, com relação ao sexo das pessoas candidatas. A pergunta foi unicamente destinada à candidata mulher: Como você vai conciliar o episcopado e sua família? Essa pergunta, que poderia muitíssimo bem ser destinada a qualquer uma das pessoas candidatas, uma vez que todas são casadas e têm famílias constituídas, ao ser feita apenas à candidata mulher, desvelou o senso comum sobre o papel que deve ser desempenhado pela mulher, como única cuidadora da família, papel esse há muito definido pela sociedade patriarcal e machista.

O destaque dado à pergunta em questão, por ela ter sido dirigida apenas à única candidata mulher, evidencia as desigualdades de gênero culturalmente construídas e legitimadas pelo discurso machista construído pela sociedade, do qual o discurso religioso também se apropria e, muitas vezes, legitima e perpetua.  E, em alguns casos, é o discurso gerador.

                O que aqui intencionamos elucidar é a explícita discriminação de gênero durante o processo eleitoral, admitida publicamente pelos candidatos homens partícipes e pelo bispo diocesano, em carta à Diocese assinadas por eles, da qual destacamos os seguintes trechos:

...falsas acusações e boatos atingindo todas as candidaturas, mas especialmente envolvendo a Revda. Marinez Rosa dos Santos Bassotto,...

Diante dessas e outras insinuações e acusões que a Revda. Marinez, sua família e comunidade têm sofrido durante o processo de eleição ao episcopado, e mesmo após o início do Concílio de eleição, nós candidatos ... e bispo diocesano ... esclarecemos e declaramos que: a) Estas insinuações não correspondem com a verdade do fatos e que as repudiamos como causadoras de graves sofrimentos à Revda. Marinez, sua família e toda a igreja; b) Que ditas afirmações, aqui desmentidas, não devem comprometer a imagem e o desenvolvimento do ministério que a Revda. Marinez em oferecido a Igreja em todos os níveis; Nós ... nos solidarizamos com a Revda. Marinez e lhe pedimos perdão em nome da Igreja Diocesana e esperamos que fatos como este sirvam de aprendizado e não se repitam em relação a ela ou a qualquer outra pessoa.(Carta ao 120° Concílio da Diocese Meridional. Porto Alegre, 2012)

 Como participamos de todos os encontros regionais, foram vários os comentários nos bastidores sobre as possíveis dificuldades que teria a candidata de assumir o episcopado, se eleita fosse: por ser mãe de duas crianças; por ser esposa de um leigo; por ser muito jovem; por sua experiência pastoral estar focada majoritariamente na Catedral diocesana; por ser divorciada, sendo alegado que se não conseguiu dar conta de administrar o próprio lar, como seria capaz de administrar a diocese; que ainda não é tempo de termos uma mulher no episcopado; dentre outros comentários.

Tais insinuações e acusações foram desde especulações sobre a vida pessoal e familiar da candidata, até sua vida ministerial, como atestam as palavras da carta em questão. É míster reconhecer que a alternativa espúria de depreciar a imagem da única candita mulher, deveu-se ao fato de que parecia absurdo admitir que o motivo pelo qual a candidata não deveria ser eleita era unicamente por ser mulher.

Vale aqui o registro de que sendo a IEAB parte da Igreja cristã, tem como pilares de seu fazer teológico a tradição, a fé e razão, tendo como ponto e partida os textos bíblicos. Assim sendo, cabe aqui destacar o que afirma a Bíblia sobre o episcopado, na primeira Carta a Timóteo, capítulo 3, versículos de 1 a 7:

Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. É necessário, portanto, que (a pessoa) seja irrepreensível, seja monogâmica, tenha temperança, sobriedade, modéstia, seja hospitaleira; seja apta para ensinar; não dada ao vinho, pacificadora, cordata, inimiga de contendas, não avarenta e que governe bem a própria casa, criando as filhas e os filhos sob disciplina, com todo o respeito; não seja nova na fé, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo. Pelo contrário, é necessário que tenha bom testemunho das (pessoas) de fora, a fim de não cair em vergonha e no laço do diabo.( Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993, p. 249.)

 A orientação bíblica sobre o episcopado, apregoada pela IEAB, e no entanto ignorada pelas pessoas que optaram por caluniar à candidata, unicamente por ser mulher, fez com que, de outro lado, outras pessoas se mobilizassem e apresentassem seu apoio à candidatura feminina. De modo que houve um grupo de lideranças, 50% do clero diocesano, cujo perfil predominante é a jovialidade da idade cronológica e/ou do tempo de ministério pastoral, que apoiou a candidatura da única candidata mulher. O grupo que apoiou a candidatura da única mulher candidata, em um movimento de defesa da candidatura, sem quem com isso fosse necessário depreciar à imagem dos candidatos, e acreditando que o perfil da candidatqa atendia ao que se espera de aluguém no exercício do ministério episcopal, afirmou em carta aberta:

Como diaconisa e sacerdotisa da Igreja, ela tem demonstrado que servir é a principal marca do ministério da Igreja, razão pela qual foi ordenada. E em sua experiência ministerial tem contribuído com a IEAB na vida cotidiana comunitária paroquial, na participação do extinto Departamento de Missão, sendo a responsável pela organização e pela realização de uma das edições da Conferência Nacional de Lideranças (Confelíder); na participação como conselheira do Conselho Nacional de Missão e no Conselho Executivo da IEAB; como membro da Comissão Nacional de Liturgia; da Comissão Diocesana de Planejamento Pastoral e Missão, e da Comissão Diocesana de Direito Canônico; além de sua participação no Conselho Diocesano e em diversas comissões da Igreja diocesana. Como testemunho de sua vivência ecumênica, é membro da Diretoria do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Rio Grande do Sul (CONIC-RS) e integra, há 13, o Grupo de Diálogo Inter-Religioso de Porto Alegre, do qual participam também pessoas representantes do Budismo Tibetano, Zen Budismo, Catolicismo, Espiritismo, Fé Baha'I, Islamismo, Judaísmo, Igreja Luterana, Umbanda e participantes de Cultos Afrobrasileiros; testemunhando o ethos anglicano de ser ecumênico e promovendo ações de respeito à diversidade religiosa e de construção de uma cultura de paz na sociedade. De modo que nossa irmã Marinez tem dado testemunho de que tem cumprindo, com muita dedicação, importantes papéis na vida da nossa Igreja e a mais sublime tarefa que lhe foi confiada: pastorear o povo de Deus. Soma-se às razões já indicadas, o fato de que em maio de 2012, nossa IEAB celebrou 27 anos de ordenação feminina, assumindo a compreensão de que é Deus quem vocaciona e que Ele não faz acepção de pessoas (Dt. 10,17; Rm.2,11) e o entendimento de que é chegada a hora histórica desta, que é primeira diocese anglicana brasileira, e na qual está se encontra Catedral Nacional, oferecer para a Igreja de Cristo a primeira bispa anglicana da América do Sul.( Carta Aberta à Diocese Meridional. Apoio à candidatura da Revda. Deã Marinez Rosa dos Santos Bassotto. Porto Alegre, 2012)

                 Reconher que mulheres e homens igualmente podem participar de processos eleitorais episcopais, uma vez que ambos exercem o ministério ordenado na Igreja, é dar um passo rumo à boa prática de equidade de gênero. Testemunho revelador do Deus amoroso que não faz acepção de pessoas e que subverte a compreensão de poder como dominação, afirmando-o como serviço. Serviço entendido não como submissão, já que para esse o lugar da mulher é reservado na Igreja, mas como lugar de quem deve ocupar os primeiros lugares. Nesse sentido, mulher e homem, cada qual e ambos, podem e devem exercer esse poder que se nos apresenta como alternativa de equidade de gênero. Somente possível se corporificado na mudança estrutural das relaçoes humanas.

 

O presente artigo foi apresentado e publicado nos Anais do I Simpósio Regional Nordeste da Associação de História das Religiões: LIRA, L.C.S.P; BASSOTTO, M. R. S. . Religião e Gênero: A Eleição Episcopal na Diocese Meridional da IEAB. In: I SIMPÓSIO REGIONAL NORDESTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES, 2013, Campina Grande. Religião, a Herança das Crenças e as Diversidades de Crer. Campina Grande: UFCG, 2013. v. 1.

 

 

 

Fonte: 
Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira e Marinez Rosa dos Santos Bassotto